Sei que é um movimento que faço com o corpo.
Procuro descrevê-lo por palavras como se de uma écfrase se tratasse.
Um movimento que procuro capturar e fixar. Uma pintura à qual se rouba o tempo.
Arredondo os braços.
Abro o pé direito para a janela do meio. Dobro os joelhos e olho para a montra.
Defronte, o prédio onde antes havia gente, é hoje câmara de arrulhos.
(Para onde voam as aves quando chove?)
Estendo os braços e faço deslizar o pé no soalho que irá ranger. Meia-volta primeiro.
A meia ajuda. Esconde a ponta mal feita.
(Trabalho com a frustração. O que sei eu sobre o Beckett que todos citam?)
O corpo é um compasso à procura da forma.
Redonda. Curva. Fechada.
Abro-lhe o raio sem lhe expandir o diâmetro. Fico sem espaço.
Olho por cima do ombro direito. (Não é um quadro de Vermeer.)
Talvez não seja um movimento, mas antes um gesto.
21.03.2024