A ouvir a Gymnopédie n.º 1 de Erik Satie

,

Sei que é um movimento que faço com o corpo.


Procuro descrevê-lo por palavras como se de uma écfrase se tratasse.


Um movimento que procuro capturar e fixar. Uma pintura à qual se rouba o tempo.


Arredondo os braços.

Abro o pé direito para a janela do meio. Dobro os joelhos e olho para a montra.


Defronte, o prédio onde antes havia gente, é hoje câmara de arrulhos.

(Para onde voam as aves quando chove?)

Estendo os braços e faço deslizar o pé no soalho que irá ranger. Meia-volta primeiro.

A meia ajuda. Esconde a ponta mal feita.

(Trabalho com a frustração. O que sei eu sobre o Beckett que todos citam?)

O corpo é um compasso à procura da forma.

Redonda. Curva. Fechada.

Abro-lhe o raio sem lhe expandir o diâmetro. Fico sem espaço.

Olho por cima do ombro direito. (Não é um quadro de Vermeer.)

Talvez não seja um movimento, mas antes um gesto.

21.03.2024