Enquanto à peste cresciam enrugados dedos de mulher
molhando-nos os lábios tremendo de incerteza
tu empalidecias pela noite fora
numa longa e deliberada decomposição
ardendo naquele brilho reservado
às criaturas espancadas pela luz.
Os teus pés negros cortados
estremeciam enrolando-se em lençóis suados
raízes infectas brotando da boca alucinante
dos mortos que digeres durante o sono.
Nunca te perturbou
essa ordem bárbara e contagiosa
que friamente abandona tudo quando se aproxima,
projectando na parede os ossos de uma anatomia
persecutória, centrífuga, infusa,
terrivelmente precisa
ao se anunciar.
Ardemos aos teus pés enfermos
de onde alastram ásperas raízes como asas
vinculando a tua inocência – essa
contínua súplica sem memória – à
impotência da nossa febre.
Mesmo que te matássemos ali
passaríamos despercebidos.
Desgrenhada,
Despenhada,
para onde irias tu
se não estivesses
sozinha,
anoitecendo-nos
na tua caça?