Mentir uma palavra nos dedos
Olhar
Pensar
Não fui eu
Ouvir a garganta a apertar
Uma piranha vulcânica
Um saco de medos
Um outro carrasco em forma de noite
(Pouca luz)
Pelas portas
Na morte
Não fui eu
Não foi isto
Não foi ninguém
Encontrar um sítio vazio
Dizer isto
Sem chorar
Sem gaguejar
Sem pestanejar
Inventado o corpo
Inventada uma outra forma de esperar
Morrer num saco cheio de morte
E dizer
Por ali
é
Um sítio vazio
Capaz de gritar
E parar de dizer
E ficar
Parado
A olhar uma miragem
cheia
de
asas
Sem respirar
Um
infinito
…
Um nascimento
Descabida forma de começar o que se perdeu há tanto tempo
A tremer
Por entre a chuva
Falar uma palavra
Para ser morte
A varrer a noite com o olhar
Guardando os restos que olham com terno desdém
…
Queria ser (dizer) qualquer coisa
Que matou o princípio
E
Queria ir para algum lado
Queria falar a sério com uma pessoa envolta num manto espesso de vida
Cheia de calor
Cheia de comichões
Queria dizer qualquer coisa assassina
Que dá a vida para continuar
Encostada à parede
Como se fosse uma história
De joelhos numa noite
Como se fosse fé
…
Agora saímos de mãos dadas pela noite
Falta-nos a forma de ver dos pássaros nocturnos
Para sobreviver em conjunto
Sem nos perdermos
Uns
Dos outros
…
Ouviste
Este mergulho
Agora diz
Este mergulho
Não fui eu
Foi o dia
Foi a noite
Fui eu que o disse
VI.
Separados porque falaste
ver tudo morrer e
Ainda assim
Acreditar
em algo
Imortal
Cheio de vida
…
Memória do osso
Alguém se esqueceu de desenrolar (desembrulhar) a gruta celeste, a mina do céu.
Não sabemos quem
Não sabemos porquê
Os aparelhos de tratamento e cura fechados
Um martelo do lado de fora
Alguém se esqueceu de desenrolar o martelo celeste,
Não sabemos quem
Não sabemos porquê
Os aparelhos de escultura morando infinito no interior
Alguém se esqueceu de desenrolar o céu
Alguém se esqueceu de desenrolar a memória da luz
Os instrumentos de salvação no interior
Alguém se esqueceu de desenrolar os nomes
Alguém se esqueceu
Não existe
uma memória
Capaz de os salvar por fora
…
um osso,
desertado pela fome
…
Rimas de um tiro só ao cabeleireiro
Pensei que te tinha morto
Pensei também
O sangue sai em rios
Os dentes também
(Isto é um soloso sonhador
Deixemos que aconteça uma dança de segundos:
Fios de cabelo-tão finos que-cortam as memórias em formas precipitadas
Saem os pelos primeiro pelo braço-pata-bicho que-dizemos pelo
Dizemos cabelo
Depois o resto
Sempre o resto
O resto também:
Acabou a dança
O soloso parou de sonhar)
Sai uma vontade de viver
O som das árvores a dizer qualquer coisa que haverá de nascer nas vozes secretas da manhã
De uma hora certa
De um gesto certo
De uma maneira nova de limpar a mesa do jantar
Entre um relógio
Entre uma espera para morrer
…
Pensava ter-te visto
Pensei ver-te viver
…
Noite de janelas abertas
Rodaste mal outra vez
Estás virado para o lado errado
Um discurso sem eu e sem o outro
Um recomeçar desenvolvido na espera
Vamos
Deixar esta voz
Deixar este verme
Deixar este sonho
Agarrado ao lado que cai
Que cai de tudo isto
Agarra-te
Deixa estar este verme
Esta esperança
Esta salvação
Um agarrar demasiado poderoso para ser engolido
O manifesto ser que poderia voar
Ficou sufocando os dedos do homem
Sem se agarrar
Deixada esta salvação
Esta ira
Esta pedra
Este caminho
Deixemos estar os vivos
Deixemos estar os mortos
Somos só um agarrar
Um deixar
Andamos à roda
Deixamos o eu
Deixado o eu
Um outro continua por um caminho
Por uma esperança
Pensando-a viva
Capaz de voar
…
De fora para dentro-de-dentro-para-fora
Encontrado o livro com som-
-a-pilhas
O homem abre silenciosamente a boca
Tirando, chamando,
Em sons demasiado precisos
Todos os seus músculos
Boca aberta é empurrado um dente para dentro,
Vêm os pássaros
Porque não poderia faltar um só
Se é a parte do osso que voa
Empurrado um dente o ar sobe em osso e o mar recua em osso
É empurrado um outro
Dente
Braço na parte do osso
Dente-mão
Dente-cabeça
Dente-resto
Veio um som, foi enterrado
Veio um silêncio
Foi enterrado
Uma grande faca de marfim veio cortar a cabeça
Lembrando um silêncio ainda mais profundo
A mão
Decapitada
Continua a chamar os insectos do ar
Os insectos da terra
Um dedo calcou a terra
Um dedo calcou o olho
Um dedo calcou a árvore
Um silêncio maior veio
Deu um tiro de marfim na testa
Para lembrar um silêncio mais rigoroso
E a veia do homem calcou a veia da fera
A veia do homem calcou a veia do que nada
A veia do homem calcou a veia do que corre e caça
E um chicote de ouro veio
Derrubar a plantação
Veio um medo
Veio um susto
(E)
Lembrando um silêncio maior
Os dentes engoliram os ossos do mundo
E ficaram no ar
Assim
À espera de uma morte mais rigorosa
De um silêncio maior
Para que se ande
Para que se voe
Para que se coma
Um passo em frente nuns silêncios assim
Quer dizer mais para dentro do osso
Então veio uma morte inteira
Então veio
assim
Um homem que ama os ossos
assim
Cabeça de crocodilo cheia de plantações na boca de pássaro
Mão-dente, trabalhando a terra que mastiga
…
Rostos antigos como dentes alongados para fora das estações
Calçada de marfim
Segurando
O fogo miraculoso
No olhar-crânio
…
Não existe
já
esta salvação
Capaz de engolir o homem
sem o mastigar
Sem que se ouça o som
da faca
do revólver-
-automático
O som
do chicote
…
Rebentou
O som
uma pilha encharcada
Em sangue
Suor
e lágrimas
…
Na janela de madrugada
Levantei-me
Abri a primeira maçã do dia
E vi o teu rosto, salpicado de estrelas como se fosse vida
Levantei-me
e ouvi a porta a gritar
um último cão à deriva na noite
Abri a primeira luz do dia
Vi o teu rosto
Aberto ao meio
Salpicado de sangue
– um sorriso –
Caminhando
Caminhando em pernas dolorosamente longas
Acordando coisas pesadas nas pernas
Levantando coisas solenes em cada mergulhar de pés
Olhei para cima no campo cultivado a perder de vista
Um céu pequeno
Como se fosse copo entornado para cima
Levantei
Abri ao meio
Levantei mais
Abri mais demoradamente
Levantei mais fundo
Abri ao meio a coisa mais escondida da noite
Vi teu rosto
Levantando também
Abrindo ao meio as estrelas
O sangue
Pedindo um sonho
Uma vontade discreta de sonhar
Olhamos
Pisei o caminho
Olhamos
O sonho
Este que te viu
Conta-me
Que sonho é este em que te vi nascer
Conta-me
Que coisas deixei outra vez mais para trás
Conta-me
Se uma estrela te ferir
Conta-me
Se algum sangue te deixar só
Conta-me
Se te deixar
Conta-me
se te deixar
…
DITADO POPULAR
Tenta dizer isto sem meteres os dedos na boca
Tenta fazer isto
Faz como se fosse de manhã e estivesse um grande sol perto
Mas
Aconteceu de repente
Com amor
Como uma coisa qualquer
Se fosse uma coisa
Se fosse um jeito
Se fosse ao menos dizer como se fosse sem mãos
Sem jeito
Mas não foi
Não aparece a boca
Não aparecem os dedos
Não aparecem as pernas
Não apareceu um medo
Não apareceu um susto
O isco lavrado desceu
mais
baixo
Foi devagar
Com cuidado
Para um eu morto aqui
Um outro num outro lado
Sentado
Nesta cadeira
Que não chegara sem sede
De qualquer coisa sozinha
Como isto
Como isto
Assim
Com amor
Tenta dizer isto
Tenta sem mexer os lábios
De boca aberta
Sem que se te veja a fome
Tenta dizer isto
Como se fosses enorme
Uma cadeira
Metida na boca
À espera de uma gente
À espera de uma ceia
Ao meio da noite
Num sítio em nenhures
Tenta dizer isto
Salva-me
Diz isto
Diz-me
Faz isto
Faz-me
Conseguiste
Agora outra vez
Desta vez a sério
…Este som deve vir dos bichos com as suas máscaras e aparelhos caseiros: devo estar a morrer: não: prefiro de outra forma: devo estar morto: deve ser:: é a única morte que me lembro: o som da cabeça dos insectos a esparramar na máscara é atordoante: como se levasse com um jornal na cara frágil e transparente da luz: tenho que correr: correr muito: para as formigas me largarem o pelo: não quero assim: são elas que me transportam: rapidamente: para as bocas subterrâneas: devo ter sido um agricultor: um benfeitor dos insectos: devia: plantava para ficar para eles: nunca comi nada: nunca abri a boca para comer: ficava a ver os choques entre os insectos trabalhadores: invejava um acidente assim: num carro: num comboio: a pé: um choque entre os corpos que me fizessem dizer algo como: depois de acordar: já não tenho uma perna: como era bom: poder dizer que se teve: desta forma incompleta e cheia de esperança.
…Encontrei um calendário: só tem alguns poucos meses: e uns quantos dias: deve ter sobrevivido a um fogo imenso: explicaria assim: não tenho propriamente tempo: tenho uns dias: tenho uns meses: e assim sucessivamente: se tivesse tempo: efectivamente: deixava crescer o cabelo: como nos bons velhos tempos: e depois sair de casa ou do escritório ou do hospital: com aquelas preocupações de quem o tem: arranjaria umas tatuagens: comia para ficar mais assim ou mais assado: preocupava-me com as coisas a seu tempo: mas não tenho tempo: por isso tenho que arranjar um fio elaboradamente versátil e colorido. Tenho que esperar que um pássaro me cague em cima: tenho que esperar que o tempo se esqueça que estas coisas, nos bons velhos tempos, seriam os azares de um dia qualquer de alguém: e agora são uma vida inteira, de uma legião: HAHAHAHAHAHAHA: consegui ser um pouco pesado agora: não sei o que aconteceu: acordei agora: deve ser por isso: ainda não cumprimentei as fortes regras que me vão roubando pelo dia: HAHAHAHAHAH: mais uma: que disparate: dizia: não é preciso: cantava que tinha descoberto um calendário: é bonito, um pouco infantil, mas passo agora um bom tempo a passar todas as páginas: tanto tempo: demasiado tempo: os frutos nascem e caem: eu não chegarei ao verão: não me lembro do que come cada uma das estações: DO ANO: ou isso, ou não sei escrever: estava uma folha na parede que me lembrava de qualquer coisa que me esquecia, talvez pelas emoções fortes que me esmorravam a cabeça por dentro em ritmos de presságios. Teria sido uma morte deliberada: deliberada no sentido em que se pensa: como se pensa a natureza: as artimanhas da água: as artimanhas e jogos dos pássaros: sempre a inspirar algo que só eles podem ter: deve ter sido no dia que disse: tenho tanto orgulho nisso: não é orgonho: toda a minha vida depende agora de ter escrito essa data: diria que toda a minha vida se inspira nela: descanso o coração: entrego-o ao mar de sangue que pinta os dias e a comida e as portas: existe uma dificuldade em sair e entrar: sabe deus o porquê: HAHAHAHAHAHAH: existe uma teimosia qualquer, não sei qual é. Não o quero ver naquele estado. No momento em que tudo aconteceu tapei os olhos: ainda hoje os tenho tapados: as pálpebras arranjaram uma inspiração nocturna: está visto que hoje é da inspiração: não queria abrir aquilo, os outros abriam: assim não se convence de nada: os outros: eu: os outros: eu: os outros: eu: assim não dá: percebe-se que não temos nomes: o pior: que não temos o que dizer: não sabemos o que dizer: isto fica cada vez mais unido: estamos e somos um belo par: dir-se-ia que nos beijamos constantemente: e comemos as nossas palavras impossíveis: pelos risos e gritos de beijos profundos: cheguei finalmente. Não queria subir, gritei daqui: gritaste: como és pequeno ainda: mas nada de sustos: queremos o número 3 do nosso lado: mas agora: quem fala: quero eu: quero eu: quero eu: queres tu: HAHAHAHAHAHAH: ninguém: rigorosamente ninguém: gosto de determinadas palavras e vou repetir mesmo que sejam inoportunas: nada é inoportuno quando todos avançam a recuos para o fim: prepara-se algo arrepiante: somos belos e jovens: um pouco de um eu ausente e outros 3: ou outros dois:.
O sol era demasiado limpo e demasiado fraco para aquecer alguém naquele dia. Todas as coisas brilhavam sob a luz. Todas as coisas brilhavam como se fossem preservadas pela luz fria. O comboio estava previsto para dali a uma hora. Marco chamou um táxi, apontando com uma delicadeza fria, digna do tempo, como se indicasse algo que passou despercebido àquela estação. O que lhe aconteceu justifica tudo, a partir de agora, e ele sabe disso, melhor que ninguém: – leve-me para perto dos ciprestes!
O taxista, como se o percebesse, soube o que Marco queria dizer. Passado pouco tempo, chegam.
: que coisa mais imprudente: 1 hora: 1h24: HAHAHAHAHA: vamos destruir o pouco que foi dito: Marco que? Esse vai morrer à fome: eu é que não lhe vou dar de mamar: mesmo que isso não apareça na tua charada: ele teve que mamar para estar aqui: TEVE: por isso não: Marco não: olha para ele, tem os ossos a romper tudo, até à paisagem: tanta morte ele bebeu em vez do meu precioso leite materno: ciprestes: táxis: e depois: temos estes
dias:
e
depois:
Estava nu, de barriga para cima, ao pé da janela. Ainda estava sujo da brincadeira que tivemos. Parecia sorrir de ser eu tão desastrado a encaixar os nossos prazeres num movimento. A luz da rua fazia todo o futuro brilhar no meu peito. Era realmente brilhante. Ele estava tapado, mas solto por debaixo dos lençóis. O cabelo dele brilhava o mesmo também, dele ou meu, brilhava o futuro. Amanhã tenho que acordar bem cedo. Esqueci-me porquê: escreve o que quiseres meu doce amor: com o infindável tempo, um dia seremos reis deste reino: um dia, como o tempo é como é: seremos o lixo que rola algures, gasto, pó: mas tenho que dizer em voz alta: isto não parece vida: parece sonhos: faltou à vida e vem parar aqui: isso é que não: existira, com tempo, uma história: uns quantos nomes: data já tenho: ali é um grande erro: ali é um grande sonho: e é tudo o que tenho: agora: perdi os outros dois: ou três: é difícil, falar com ritmo por entre estas imagens a preto e branco.
…Estou para aqui a falar: como quem descasca um fruto: deixa a casca: e atira o resto pela janela: que seja pelos: meus pecados: não quero que isto seja nada: quero que seja: quero antes de mais: nem palavras serão: lá fora a natureza continua civilizando e barbarizando o fruto: aqui: suspendemos tudo: aqui chamamos a morte para que se esqueça um pouco mais de olhar pela janela: digo para fora: parece: assim: que nunca de cá saiu: a casca será a casa de um verme como eu: vou chamar a esta: uma data: aquela uma forma de deslocar a vida: aquele beijo: se fechar os olhos e os pisar com mais ou menos força: vou vendo coisas incríveis: não só a preto e branco: mas a cores: as cores serão as palavras: quando era criança acordava cedo, depois de um sono com o coração o mais perto possível do colchão. Olhava a luz da manhã a nascer. Via insectos-fantasmas, feitos de algodão usado, a formarem a luz num rosto fugindo da decomposição. Ia mexendo nos lábios, com a língua: não fosse a dor se transformar em sangue, em gotas de sangue: na altura, um reflexo de concentração imaginando. Era o primeiro a acordar, sempre.
Vivi num moinho: depois num farol: quando era criança não sabia onde: vivo num poço: ou num tambor de um revólver: pequeno demais, tudo é pequeno demais para o mundo, grande demais para mim: quando era criança crescia no campo. Não me considerava um saloio: Não me considerava: Perde-se alguma coisa quando se anda aqui: mas as moscas continuam a entrar, o que é bom: era calmo, tudo muito calmo, tudo em silêncio, tudo silencioso. Em andares e portas, imaginava um cinema, um bar, um clube de jazz, um clube de gente crescida, que guardava o beijo sincero para espaços rigorosos. Imaginava dois homens, não sabia o que fazer com eles.
…Se pudesse: se quisesse: um dia: hoje: agora mesmo: agora mesmo aqui e agora vou comer tudo: se não tivesse que meter esta boca enrolada: toda enroladinha aqui: é o estojo onde está enrolada: feito para a guardar assim: gostava de conseguir ligar a um telefone utilizando a minha mão: atenderia do outro lado um telefone: utilizando uma outra mão: e eu estaria acompanhado: o meu problema foi meter a boca assim: disseram: rápido diz a tua fome: diz o que queres comer: eu disse alguma coisa: então tive o que desejava: como desenrolar este fio, esta corda, meter a ponta lá de fora: HAHAHAHAHAHA: beber das flores como uma mariposa colibri: comer a flor à dentada: como um leão come a cabeça das suas vítimas: alguém atendeu. A voz estava demasiado tímida, demasiado triste ou demasiado dormente para se perceber mais que as primeiras letras das frases que dizia. Entretanto ganhei coragem, disse para passar por cá. Estaria arranjado passado uma hora e pouco. Acabei de me arranjar mais cedo. Fiquei à janela, a olhar o movimento heroico dos pássaros: discretos. Por entre dentes serrados dava-lhes os parabéns, os meus parabéns.
…Algo dentro de mim me quer matar: agora tenho a certeza que é disto que se trata: por isso já não me esforço para afastar os predadores: agora aceito todas as mãos que se lançam a mim, com carinho, com dedicação: agora não digo para terem cuidado: o predador está por dentro da presa: a selva tomou conta da brandura do sangue: quando era mais novo, detestava, quando saía do autocarro, andar, de noite, ao pé das pessoas que saíam comigo: detestava pensar que as poderia: mesmo não dando conta: estar a seguir: por isso ficava para o fim: com o tempo passei a ficar mais tempo no autocarro: depois a ficar mais tempo parado: depois dormia lá: isto é sobre as pernas: antes era sobre as mãos: ficava muito tempo a olhar pela janela. Ficava demasiado tempo a ver as peladas da relva e do pelo dos animais: um dia vão dar-me uma grande dentada. Eu não sou um assassino, não sou. Isto não é uma vida, foi um bilhete de ida, de ida e volta, que alguém me atirou para cima, à falta de uma flor solene.
…Disse ou escrevi: ou disse em voz alta: que sou as legendas de um filme a preto e branco: não sei se acertei: sou as legendas de um filme mudo: com um pouco de sorte: com um pouco de azar se encontra o paraíso: vou dedicar-me a outras coisas: vivi demasiado o que disse: agora: estou velho e cansado: tenho que viver muito mais agora: mais ainda do que antes: tenho que dizer que se nota neste erro a paixão de então e a ansiedade de agora. Eu não as escrevo, às legendas: sou pago para as escrever, nesta máquina, nesta quimera. Mas a quimera obedece a outros: que têm o que sempre me faltou: depois de sair do trabalho, vou para um ou dois bares. Bebo um ou dois copos de álcool concentrado. Tenho um diário que levo para todo o lado, até para as casas de banho públicas. Devo misturar umas quantas coisas na tinta, porque: se ficar com fome: basta lembrar a tinta e morre, a fome morre: morre quem a mata: se conseguisse: o que vivi: o que é pouco: facilmente seria uma vida completa: quando for velho volto a isto. Quando trabalho volto a isto. Quando voltar. Quando eu voltar eu trato de tudo. Quando eu voltar eu desminto eu afirmo mentira de facto. Trocava a voz por uma mão mais ou menos independente. Queria libertar os meus elementos naturais. O artificial fica comigo, sinto ligação paterna. Com isso eu fico. Para ter qualquer coisa para cantar o amor.
…O meu coração: bate rápido: às vezes: bate em ritmos hilariantes: não terá que ser o coração: pode ser que seja o corpo: uns dias: vários dias: neste dia: uma voz: ao longe larga umas sentenças: organizando a sua vida de longe para perto e de perto para longe: deve perder muitas coisas assim: o que me lembrava: estou sempre a perder coisas: pus um grande lençol sobre tudo: atei a um longo pau: às vezes temos que tratar o que tira do seu tempo para participar nesta contemplação: nesta assombração: nesta vida rápida e leve: como se fossem na verdade jovens crianças com medo demais para começarem a brincar: vamos montar um céu: com o fogo definiremos astros e paredes para grafitarem quando forem menos jovens: mais cheios de raivas e esperanças: largo e grande: o lençol: como a minha roupa: entram e saem da minha roupa vazia que uso para me dar um ar mais satisfeito: para me trazer algo de mais: tenho medo de perder as coisas: nunca vou sair de ao pé desta janela: não a quero perder nunca: perdi já as plantas que a rodeiam: perdi os chapéus que descansava por cima delas: posso morrer aqui e nunca sairei daqui: lá fora vão os insectos com grandes sorrisos pesados que os impedem de se mover fora da morte: ficarei aqui para sempre: morrerei e continuarei a falar: porque a morte não impedirá nada quando estiver sozinha: companhia: eu sei disso: vou ficar num frasco, num grande frasco de vidro, como via na sua mala de estudante de medicina. Perguntava-me, discretamente em voz alta. Porque haveria ele de transportar tudo isto neste dia, com que intenção deixar a mala semiaberta. No fim deste baixo pensamento disse alto e em bom som, por que não lhe compraste flores?
…É verdade que nem para tudo será forçosa uma intenção, poderão ser outras coisas a darem um contorno às coisas. Adormeci na viagem. Acordei com um ligeiro toque no ombro e uma cinza de cigarro a queimar-me as calças. Se bem me lembro: era uma cinza: como gostava de não a ter perdido: se a tivesse guardado: se a tivesse deixado estar: seria isso que usaria para ir ao centro do mundo: olhava para a cinza: chamava-lhe o mesmo nome que durante a minha vida os outros me chamavam em tantos tons distintos que me esqueço: ia com a cinza até ao meu osso: depois até ao chão, depois até à terra, depois até ao fundo das coisas arrastando o cheiro de todas estas coisas consigo: a mão dele sacudiu-me. Falou-se de uma hora urgente e certa. Eu não sabia o que dizer. Fiquei em silêncio, a aguardar. Havia algo que me impedia de aguardar em silêncio.
…Hoje está lua cheia: não preciso de usar as velas: já a tenho dedos: dês dos: 12: 11: 10: talvez: uma vela: só a acendo quando as luzes me dizem com antecedência que vão sofrer uma derrocada: uma lua: e ainda assim: não paro: não vou perguntar quem sou: não vou dizer uma palavra em perguntas: em respostas: escolhi as palavras com antecedência: antes da minha morte: não vou dizer estes disparates de uma boca tão morta que traz aos dentes todas as suas refeições: hoje vou passear: na lua: à lua: espero não dizer disparates: se a linguagem nos diz: eu não digo nada: Logo: a linguagem não pode dizer nada: espero não estar a prejudicar nem uma formiga: volto aqui quando uma formiga me carregar até aqui: vamos uma boca: depois outra: vou a rolar pelo chão como uma folha no outono: cuidado, uma formiga recheada de cigarras gritantes, um braço cortado, mas ainda assim um braço, volto aqui, quando um braço me trouxer, em grandes carregos: por aqui: vi esta imagem umas estações atrás: quando ainda passeava no sol: pelo sol: as árvores parecem cada vez mais os meus dedos: eu empoleirado como um pássaro: nos meus dedos-árvore: sou estreito: sou alongado nas partes que precisam: não consigo continuar: já não passeio há muito tempo: fui-me esquecendo: da ordem dos olhos-rolantes: primeiro passavam por ali: depois por ali: parei perto da porta: olhei pela janela: abertas as persianas: abertas as cortinas, um sorriso amarelo florescente veio dar-me as boas-vindas àquela porta rosa, aquele carro, longo carro americano. Não tinha que dizer nada, mas agradeci, aquele rosto desfigurado pelo sorriso que: foi tudo sacrificado: eu raramente consigo recomeçar: pelo sorriso: raramente consigo olhar para o caminho com paixão: esta palavra está a arder e estas são as suas cinzas: não fico com os olhos vermelhos da cinza: e: no entanto: estão aqui: ao pé de mim: demasiado perto: e eu demasiado longe agora para dizer com certeza: demasiado perto para ter, necessariamente, que ser outra coisa. Entrei no carro. Acendi o cigarro pela segunda vez: um outro que não tinha intenção: Abri a minha mala, a que a minha mãe me tinha emprestado: emprestado é melhor que dado: faz-nos mais gente: no meu primeiro dia. Aqui podia ter corrido em direcção a casa, e ter parado tudo ali mesmo. Mas algo tinha feito as coisas avançar, como cinza, no céu escuro desta noite escura. Bem vistas as coisas, as janelas não são assim tão diferentes, para recear tanto o futuro, que vá a correr e o carro já começava a andar, numa marcha fúnebre, mas a andar. Não quero fazer cenas, quando: ias dizer na minha cabeça: não consegues: vamos esperar: vamos pois: vamos esperar pela formiga: qual outra vez: qual uma: vamos esperar pela formiga ou pelo braço: esperar não dá: então vamos correr até ele e vamos dizer que os vemos: estamos a correr: em direcção a uma destas coisas: ou as duas: somos dois: está aqui a prova: então vá: agora vou estar a correr: ligue mais tarde: deixe a mensagem após o sinal. Não tive coragem de ouvir a mensagem. Da noite ficou pouco. E eu mal saberia responder: nada disto se safa: talvez não tenha lançado os olhos: vou lançar: lançar não dá: está a ser usado: para limpar a roupa: o detergente é daqueles antigos: não por. Não por nenhuma razão. Mas a culpa ficava mais e mais leve, mais vulgar, até não acenar a pecados, mas a um tédio demasiado corriqueiro para ser levado a sério. Se começar a ser incoerente, está tudo perdido, vou ter que improvisar. Para quê? Em toda a condenação, uma luz. É isto que faz toda a vez ser um desespero maior. Correr, sair, voltar. Correr, sair, voltar. Correr. Sair. Voltar. Se continuar, a partir daqui, não será um crime. Na próxima lua cheia falarei do estado do meu corpo.
… (Se eu soubesse, não teria continuado. Mas foi dito andar: e eu pus a perna aqui: não
sei do espaço em frente: e perdi a perna)
Espero: pacientemente: corro: pacientemente: paro: pacientemente: um verbo mais pequeno: que me caiba nas pálpebras: na boca: no vento do meu cabelo.
…Algo dentro de mim corre a pés juntos para me matar: é um raio a pés juntos: implacável: seco: por isso devo morrer em breve e digo isto rápido porque não posso de outra forma: vou RIR vou RIR vou RIR: AAAAAAAAAAA: vou rir vou riiiiiiiir vouuuu riiiiiiiiiiiir: AAAAAAAAAAAAAA: VOU-ME RIR VOU-ME RIR EU VOU RIR AGORA EU VOU RIR VOU RIR RIR RIR RIR RIR: AAAAAAAAAAAAAAAAAA: vou sorrir: AAAAAAAAAAAAAAAAA: vou gritar vou vou eu vouuuuuu eu vouuuuuu para o grito eu vouuuuu abram alas abram tudo o meu grito quer entrar: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHA: tenho receio destas coisas: não digo a quem me pergunta: um velho insecto mordeu-me os lábios: cuspiu uma coisa maior que ele e foi embora com cara de mau e com cara de chateado e com cara de reprovação: volto mais tarde: uma cara: volto mais tarde: vou morrer por cima da janela quando elevar a minha condição: quero morrer por debaixo da janela: ainda me vai atirar um carinho: ainda me vais atirar um gesto amigo: um sorriso nos olhos de amizade sincera e benigna: quero conhecer o teu nome: quero dançar com ele: quero amar mais esse olhar que toda a vida: mais que o amor que a vida tem pelo mel do mundo e pelos frutos do mundo: sou igual: morro igual: quando morrer: dá-me um nome: vou acabar com isto: para quê continuar: dei um pontapé na lata, ia escorregando: banana: dei um pontapé no carro, entrei, voltei a sair. Ouvi um grito de amor como nunca ouvi em toda a minha vida. Sei que vou acabar ao lado dele. Ela diz-me que sim. Amanhã, convido-o para jantar cá em casa, o tempo não está famoso agora. Nobre observação, nobre para ti, nobre ainda mais para mim: suporto toda a morte: menos a morte de quem comeu.
…Eu sou uma… boa pessoa: disse-me uma vez um homem peculiar: o meu coração: é neste dia: inventar: um lodo de um belo rio: separado, torto, de rosto desfigurado: serve para que os animais o pisem e deixem a sua pegada tatuada nos caminhos: eu não danço: eu não quero mais saber: eles não dizem nada e pairam dançando na pegada de escarpados limites: o som é bonito, deste sapateado no meu coração: no lodo do rio: nas partes paradas onde os animais o enchem dançando e chorando alto para as luas: noites de, dias de dança: eu tenho umas botas velhas: uns velhos pássaros: uma velha bengala: vou atravessar tudo isto outra vez: vou deixar tudo para trás: tenho que calçar as velhas botas polidas e brilhantes: repetição: tenho que as vestir: vou deixar tudo o resto para trás: os pássaros vão ajudar a olhar para cima, quando o tempo chegar: de andar para baixo: tenho que o fazer, tenho que pisar o lodo, inventar umas novas formas para as suas danças: eu não danço mais: um espaço para o resto: uns pontapés, uns sentidos pontapés calmos e bonitos: espero que ninguém me veja: tenho que encontrar as botas: encontrar o rio que vejo: encontrar o lodo: tenho que descer: levo os pássaros para ir olhando para cima: bebem água de onde quiserem, mas podem sempre contar com o cálice que lhes vou deixar: carnudo: seco: cheio de água onde antes havia intenções e medos: vou atravessar quando os preparativos estiverem prontos: as botas: deixar tudo para trás: quero deixar tudo para trás: calçar as botas: e espancar o lodo para dentro, para fora do rio: um dia, serei uma dança outra vez: quando voltarem, quando a sede for outra vez algo do amor: amor: a frase é curta, é longa demais: o coração pede o resto, vou a caminho, para deixar mais um pouco, vou deixar tudo para trás: vou deixar lá um pouco, um pouco mais, para que se dance com um braço, com uma perna: com uma mão: como vai ser bonito dançar completo assim: descaroçado: por debaixo da dança: as botas são pesadas, só as calçarei uma vez: quando chegar calço: quando acabar eu danço: é uma promessa: eu sou uma… boa pessoa: disse-me uma vez um homem peculiar: eu: danço: eu prometo: eu calço: eu danço: “resumo, poderia contar esta história de outro modo”: uma história, finalmente, uma história: sobre o coração.
…Ele tinha deitado fogo ao mundo e eu: tinha deitado fogo à casa. Com a pressa esqueci-me de fechar a porta, fechar a mala. As coisas foram saindo e entrando em brasas sinceras e comovidas. Esqueci-me da única fotografia que tinha em casa: voltei: nunca saí daqui: agora não sai mesmo: como se pode salvar seja quem for: tudo pode ser salvo: se nos condenarmos mais e mais: paciência: chegaremos lá: eu, pelo menos: Esqueci-me do meu relógio. De vez em quando pensava em como, como me teria esquecido de algo tão rigoroso para mim: terias voltado: eu teria: voltei atrás: voltámos: não farias algo assim por mim: se fizesses não estaríamos a falar aqui: assim: estragando tanto trabalho delicado:
– tens horas?
– geralmente tenho- sorrio- mas hoje. Esqueci-me de o pôr no pulso. Não o trouxe comigo. Nunca me tinha esquecido dele, nunca.
: por esta altura já haveria de ser uma história sobre tempo: ou um livro de piadas: queres voltar: precisas de voltar: temos que limpar tudo: temos que os matar: HAHAHAHAHAHA: não somos assassinos: nunca o fomos e nunca o seremos: talvez 4, haverá mais uns quantos:
Olhei para os olhos dele com atenção. Não sabia o que sentir. Queria descansar a minha cabeça no ombro dele. Ele não estava nervoso, conseguia ouvir os segundos pelo seu coração controlado. Mas os olhos, os olhos dele diziam outras coisas.
…Já encontrei não sei o que: Já deve dar para: falta encontrar umas quantas coisas: um fato para poder ir ali: um pouco de pano: um trapo: deve estar de noite, bem de noite por aquela altura: mas já encontrei tanta luz, o que fazer: meter a luz não sei onde: dizer noite: o que é que me acontece à boca: ou ao corpo: que exagero: com as mãos: ou com o corpo: podem ser tatuagens: ainda não descobri um calendário: nem um carro: os carros são maravilhosos para se dizer datas: devia memorizar muitas datas: ter datas sempre à mão, na mão: mas isto tudo já aconteceu, então fazer tudo para quê: devo ter trocado a memória: não a encontro: na altura: naquela vez devo ter trocado para: devia estar bem aflito: devo ter comido bem, trocar a memória por um pouco de papel para limpar o cu: ou então umas boas cuecas: para fazer sexo como as pessoas jovens fazem: tenho que encontrar mais alguma coisa não sei onde não sei o quê: para poder ir ou para pôr alguém a ir não sei onde não sei quem não sei quando: tenho que descansar, se não, vou-me esquecer onde guardei tudo: tenho uma rosa, um jornal nas páginas amarelas: com sorte vou a um casamento amanhã: um amigo, sim, encontrar um daqueles meus velhos amigos: ainda tenho tempo: chega desta conversa: deste monólogo: destas orelhas cheias: destas bocas cheias: já vi isto em algum sítio: já as li em algum sítio: tenho que encontrar um coração: um de insectos: já há muito tempo que não mato animais grandes: o hábito ficou uns séculos atrás de mim: pôr um coração na testa, em cima dos olhos: e cantar: já li isto em algum sítio: o que interessa: o que é que isto interessa: dizer: encontrar: cantar: calar: entupir o útero de ideias: HAHAHAHAHAHAH: sim: contar uma historieta: depois entrar finalmente num carro: com uns belos rapazes: e uma rapariga cheia de roupa: o dia era de tarde: o dia era de dentro de um carro cheio de datas: encontrei: desisti: continuei por de cima do carro: chovia: o dia era: encontrei uma data: já a escrevi: um lápis: encontrar uma borracha: está quase a começar: está quase: está tão quase: só falta morrer: e encontrar um belo carro por cima do dia que já disse cheio de rapazes nas nuvens e uma rapariga no meio da estrada do deserto: estava calor: mais à frente chovia: o dia era::::::::::::::::::::::::::::::: era: HAHAHAHAHAHAHA: descobri o eco: não tarda muito temos um fim bonito cheio de beijos: era alto e magro, tinha um caderno que amava mais que qualquer rapaz que tenha beijado: tenho um caderno: o objectivo é contar os dias: ele usava uma luva branca quando ninguém estava a ver: a minha luva é branca ou de outra cor: ele: eu: ele: eu: tem que encontrar uns animais, os que ouvirem: porque há uns que parecem fazer sons de homens, em alguns momentos: com isso podemos começar qualquer coisa, um olá ou um gemido: dor ou prazer: é igual: um homem, será um homem a começar, portanto. As coisas começam a ganhar uma esperança fria e lavada. Está quase, uma normalidade qualquer que foi esculpida por aquela esperança. O que foi dito pelos nossos antepassados ficou mais ou menos para trás. O dia está demasiado frio para ir jantar fora. Convidei-o para vir até aqui. A minha amiga da zona disse-me que podia acabar com um brinde à saúde.
…Não se via nada, não havia rigorosamente nada. Nem uma única coisa. Nada. Comecei a ouvir o som de um comboio: uma palavra de gente em eco: conheço a voz: ela repete-se pelos prados verdes e secos: traz uns sons bonitos o comboio: parece que deixa povoadas as plantas que crescem com acordos largos entre elas(: belas frases terríveis): um espaço rigorosamente educado: o candeeiro finalmente deu luz: dá luz: treme, apaga-se, treme, acende-se mais: vim de carro até aqui, que diferença há entre vir de carro e a pé: temos 4 patas: se vim de comboio então isso chegará para pôr em causa toda a minha natureza humana: já está: não aconteceu nada: passo o dia todo a maquilhar-me ao pé da janela, a pentear o cabelo, a olhar o espelho. Que não se pense que é por vaidade, porque é por amor: a vaidade e o amor são como água e azeite para mim: ou será pó de arroz? Demoro muito tempo: como a memória está mal: como o sonho está mal: como o sono está mal: tudo se mistura: antes também: mas agora mistura-se como se mistura um som no ouvido ou uma palavra na boca: isto é alguma coisa de que me vou arrepender mais tarde: eu sei disso: disto sei pouco: mas mistura-se, como se mistura o bicho na fruta. Vivi toda a minha vida assim: vivi fantasticamente: brilhantemente com as jóias de luz entre os rodopios dos sonhos e dos batons: não tive uma única ressaca, mas bebi sempre, até nunca me levantar, não me levantei uma única vez: a não ser para sair do carro: para sair do comboio: era noite, e havia naquela velha quinta com muros que faziam lembrar os dentes de alguém de uma idade austera: umas plantas. O candeeiro batia o tempo, as pessoas deixaram a roupa estendida: é noite: isto não está escrito em lado nenhum: o som do comboio, ao longe, deixava-me a pensar que era desse som que se alimentavam os rostos do que havia perdido pelo campo e pelo telhado da minha casa: agora tenho casa e não há volta a dar: perdi a casa algures, em nenhures: saí do carro beijando o rapaz que me levou até à paragem do comboio. Ele tinha o cabelo comprido, mas não tapava o pescoço nas partes que sabemos que vamos querer beijar sem constrangimentos. Os meus sapatos eram para onde olhava mais. Quem??: quem é que olhava mais: não posso: não posso dizer: tinha uma lista de nomes tão bonita: com desenhos a romper das letras que me lembrava uns quantos traços de carácter: ou de personalidade: a janela estava aberta e uma prodigiosa corrente de ar inundou-me as narinas: podia dedicar-me a fazer uma gramática: conjugava todos os verbos de cada frase: ia demorar tanto tempo a acabar uma que podia morrer sem contar história nenhuma: nunca soube as conjugações de cor: hoje: é o meu maior arrependimento: arranjei-me como me costumo arranjar. Tirei as sandálias porque me estavam a deixar inquieto. Olhei pela janela, ainda existia aquele movimento na estação de comboios que fazia querer dormir profundamente no meio dos pés das pessoas: isto não é apropriado: tenho que encontrar uma normalidade qualquer: acabei de me arranjar. Ele apitou: acabei de me arranjar: já estava despachado quando ele usou a buzina do seu fabuloso: ele chamou-me do seu carro. O som entrou sem esforço pelas janelas abertas. Desci. Abria a porta de casa enquanto ele abria a porta do carro. Cumprimentei-o da forma apropriada.
…A morte é demasiado fácil e demasiado difícil para ser alguma das duas: Acho que acabei: isso não quer dizer nada de especialmente definitivo: especialmente relevante: acabei: acho que acabei: ia sempre ao mesmo sítio: para o mesmo sítio: do mesmo sítio: era uma viagem: queria ir apanhar o comboio: queria ir de táxi ou de carro: queria abrir e queria que me abrissem a boca para beijar: nunca saí: sair para mim implicaria que pudesse falar normalmente de uma pequena e deliciosa voltinha por um beco: por exemplo: ou por uma esplanada: se fosse utilizar definitivamente uma última vez o pensamento: as portas que estão ao pé de mim dão para carros e para comboios e para outras coisas do género: uma imagem mais concentrada no que se pretende: um grande beijo para esta: vermes da fruta: como comboios e carros: a sair: a voltar: pedindo, em todo o caso: perdão: mas estão tão paradas como esta casa: estão tão parados como eu: como gostava de ter ido jantar fora com ele: ou com ela: como gostaria de ter ido ao seu funeral: velho e cansado: eu fui, certamente, mas isso: isso já tem nova infância fora de mim: a minha vida, é tudo o que não me interessa pensar e falar: a minha vida continuará sem mim: outras coisas não: aprendi pouca coisa: aprendi a dedicar-me a esta janela: foi das poucas coisas que ganhei um pouco de coragem para falar mais que uma vez: parada: em frente a mim: eu e ela: num acto de amor: devo ter trocado os bilhetes de autocarro, de comboio: devo ter trocado os convites, os homens, as mulheres: devo ter trocado tudo, por um olhar mais sincero: um dia vai resultar, meu amor: como acabar tudo o que nunca: bem: em poucas palavras: troquei tudo, não dei conta, foi sem querer, quero pedir desculpa, quero pedir desculpa a tudo e a esta voz que agora mexe na minha boca por mim: admito o meu nojo: elogio a sua coragem e carinho: Quero pedir desculpa eu peço desculpa não queria pedir mas agora tenho que pedir des:culpa: sinto que tenh: o: que pe: dir: descu: pa: eu peço d: esc: ul: pa: pe: ço: descul: pa: de: scul: pa: d: e: s: c: u: l: p: a: : : : : : : : : : : : : ::::::::::::::::::::::::::::::::::::: .
(Asfalto)
Pensava que era dias
Disseram que era corpo e que vinha devagar
Sol de um dia vinha coração sem sangue
Sol de dia depois era sangue sem coração
E pé sem perna
Mão sem lábio para mexer
E por isso espreitei quando era espreitar e era fogo à volta da casa durante uns valentes anos
Os meus olhos são como dois ovos agora
Que levaram tiro de flecha longa e agarrada à barriga de quem a lançou
Entra sempre um longo asfalto de formigas-cabeçadas,
Como castanholas tímidas
A martelar
Sim
Martelar os dias na chapa cheia de fogo
Espada final
Um dia
Para cortar
Tudo
À frente
Tem que sair
Durou uns anos
Os olhos ficaram
Não é importante
Tentar ficar inteiro
O pouco que se lançou ao rio
De um poderes-barco
Nau
Sim
Uma pedrosíssima e gigantesca nau
O rio
O rio que dá de beber às brasas
Faz sinal para lábios
Quer ser lábio
Beija
Beija por favor
Troncos cheios de térmitas
Ossos cheios de térmitas
Cascas de ovos cheias de térmitas
Cascas de ovo de térmita
Ossos frágeis de térmita
Pau cheio de cadáver de
Bem
Térmico
Vou esticar para a janela
Se passares atira
Atira a mão
Não interessa vir inteiro
Se passares atira
Eu agarro
Com sorte
Vem boca
Com sorte vem boca que sabe manchar a luz com buracos
Este fogo dura já uns anos
São dias cheios de calor
Este fogo dura mais tempo que eu
Mas é incapaz
É incapaz
É absolutamente incapaz de me tocar
De limpar este corpo infeliz da terra miserável que não me deixa descer nem saltar até aos seus…
Uma nuvem
As nuvens são o centro do mundo
Sabem
E perseguem o sol como nada persegue ninguém
Comem o centro do mundo
São estrelas afogadas
E as árvores são caixões em dias intermináveis de velório
Mas o fogo tem nojo
Eu sei
Eu sei
A turbulência continua
Graças
Graças
Devem ser dois ovos de térmita
Sacudo a bengala à mesma hora
A gaita de beiços
À mesma hora
Este fogo já dura uns valentes anos
É incapaz
Ouvi as térmitas com atenção
É som de gado
E cavalo
Com cavaleiro
Armado com torres de castelos de areia grandes e ocupados sem tecto
Sei o que digo
É incapaz
É incapaz
…
Um dia falo da noite
É incapaz
É incapaz
Deixo um tronco no parapeito da janela
Deixo um armário e uma estufa no parapeito da janela
Deixo uns ossos
Deixo qualquer coisa bonita e arranjada
É incapaz
É incapaz
O vento soprou
Enquanto fitava a lua entre os velhos pinheiros
É incapaz
É incapaz
(Gruta)
A luz branca cobria tudo
Como a pele de um fruto
Que se descasca a si mesmo
Dissolvente e dissolvido sorriam com o mesmo brilho ósseo
Celestial
Com o mesmo fulgor
Não valia a pena ter
pele
Ter
tecto
Ter
E
Depois de uma brincadeira limpa
Sem regras
Numa
noite
miraculosamente branda
Noite sempre
noite
Sob a luz discreta
do luar estrelado
acariciando maternamente
O mundo caiu numa só estrela
E o homem andou
No vazio
Longe do mundo
Sem luz
Sem nada